Estou lendo Walden ou a Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau. O livro foi escrito em 1894. Depois de ler umas duas páginas, eu já estava extasiada. Que livro maravilhoso, meu Deus. Thoreau é absolutamente um dos precursores do minimalismo.

O livro é uma das provas que a essência do ser humano não muda muito ao longo das décadas. Parece que ele foi escrito agorinha, em 2015. Tudo tão atual, numa linguagem tão simples… Estou no comecinho, mas uma das coisas que mais gostei até agora são as reflexões dele sobre as roupas.

Em 2015 eu entrei em crise com o meu guarda-roupa. Não, não sou uma daquelas pessoas, talvez até você mesmo seja, que tem milhares de roupas e não sabe o que fazer com elas. Não, eu tinha um número muito reduzido de peças, e todas de pouquíssima qualidade, desgastadas… A situação ficou ruim a ponto de eu não ter mais vontade de sair de casa por causa das minhas roupas. E não foi fácil descobrir que era esse o problema. Só sentia um desconforto.

Quando associei o desconforto às roupas, percebi que o que estava acontecendo era maravilhoso. Aquelas roupas não combinavam mais comigo, não diziam mais quem eu era. Eu não queria mais usar só roupa preta. E pela primeira vez percebi que eu não usava só roupa preta porque gostava só de preto. O meu interior exigia vestimentas escuras. E agora, toda vez penso: “Poxa, queria mais colorido”. Minha mãe sempre tentou me alertar, e ela tinha razão. As roupas pretas e o descaso no auto-cuidado não eram questão de preferência. Elas me representavam.

E o que o Thoreau tem a ver com isso? Ele escreve, em 1894 a seguinte frase: “Se não há um homem novo, como roupas novas poderiam ajustar-se a ele?(…)Talvez não devêssemos nunca procurar um traje novo, por mais esfarrapado e sujo que estivesse o velho, a não ser quando, tendo gerido, batalhado ou viajado de algum modo, nos sentíssemos como homens novos dentro das roupas velhas, a tal ponto que mantê-las seria como guardar vinho novo em odres velhos.”. Quando li isso, finalmente um ciclo se fechou. Finalmente sou outra pessoa.