Era uma vez uma menina que era muito sozinha. Quase não tinha amigos, tinha muitos problemas na escola. Ficava sempre em casa, sozinha. Tinha crises de pânico, tinha pavor de ficar em casa sozinha. Muitas vezes seus pais tinham que se revezar, porque ela tinha muito medo.

Aí, os pais dela decidiram trazer uma companhia para ela, para tentar amenizar a solidão dela. A mãe dela se apaixonou a primeira vista por ele, mas ele não estava disponível para doação. Mas ele era bem terrível, e como não estava sendo muito bem cuidado, decidiram entregá-lo. E o amigo caiçara chegou numa caixinha, muito assustado, bem quietinho.

Mas foi só no primeiro dia mesmo. Ele era muito terrível, e seu apelido era “o Demolidor”. Nenhum prato de comida resistiu, até usarmos um prato de inox muito forte. Puxava roupas do varal, rasgava panos, ficava entalado no portão. Entrava no banheiro e rasgava papéis. Era um explorador. Trouxe até tinta do inferno. Trazia nossos brinquedos perdidos no porão. Tinha o mesmo gênio do dono, até se coçava igual a ele.

Queríamos prolongar sua estadia, então, decidimos ter um filho dele. O filho saiu a cara da mãe, mas com um amor incondicional pelo pai. O pai fugia do filho, mas ganhou seu amor pela insistência. Quando separamos os dois, eles choram.

O amigo passou tempos difíceis, com vizinhos que só queriam atormenta-lo, fazendo com que ele desenvolvesse algumas fobias e fosse bem estressado. Passou por uma reforma pesada, ficava o dia todo no sol esperando a hora de entrar. Mas passou dias melhores depois de uma mudança, com muita tranquilidade, num lugar muito melhor pra ele.

Mas infelizmente, esse amigo tem a jornada bem mais curta que a da família.  Rapidamente foi ficando debilitado, e percebemos que ele precisaria descansar. É uma decisão horrível, mas o grande amigo que ele foi merece ter um fim menos sofrido. Então, ele está de partida, para o céu dos cachorros. Sim, para o céu, porque ele foi o melhor cachorro que eu poderia ter tido. A menina está se tornando cada vez melhor, e ele ajudou muito nesse processo. Ela não tinha mais medo de ficar sozinha, porque ele estava lá.

Então, meu demolidor, espero que tenha bastante pano pra você rasgar e muita bolacha pra você comer. Se a intenção era me tornar uma pessoa melhor, você conseguiu. Obrigada por ter existido, nunca terei outro cachorro como você.