Um dia, quando eu tinha nove anos, minha mãe me levou ao salão de cabeleireiro para cortar o cabelo. Quando chegamos lá, a manicure estava com um novo corte, e minha mãe me perguntou se eu tinha gostado. Achei que se eu falasse que não, eu a ofenderia, então disse que eu tinha gostado. Por fim, minha mãe pediu que a cabeleireira fizesse o mesmo corte em mim.

Você deve estar imaginando porque eu, dezessete anos depois, me lembro com tantos detalhes de uma simples ida ao salão. E eu te digo o porquê. Eu tinha uma vida antes desse dia e passei a ter outra depois dele. Eu vi minha vida virar um inferno por causa de um corte de cabelo. E vi as únicas pessoas que poderiam me dar algum conforto não acreditarem que eu estava tão infeliz por um problema tão fútil.

Não era futilidade. Eu cansei de contar quantas vezes alguém que não me conhecia me ofendeu, gratuitamente, na rua. Quantas vezes alguns familiares zombaram de mim. Quantas chacotas eu ouvi na igreja que eu frequentava. Quantas vezes eu rezava pedindo pra ter uma aula vaga na escola, para ficar em paz em casa. Quantas vezes ninguém queria falar comigo. Quantas vezes pessoas que eu conhecia passavam na frente da minha casa e me xingavam, na frente dos vizinhos. Quantas vezes me ligaram e deixaram mensagens na caixa postal, tirando sarro de mim. E quantas vezes eu escutei que nada disso estava acontecendo, era tudo coisa da minha cabeça. E isso se estendeu por anos. Meu cabelo não era um problema fútil. Meu cabelo foi um gatilho para uma vida infeliz. Eu tinha vergonha de existir.
Após anos de sofrimento e alguns processos químicos frustrados, eu fiz minha primeira escova progressiva que realmente funcionou. Não tenho como descrever a sensação. Parecia que um peso enorme havia saído das minhas costas. As pessoas me elogiavam no trabalho, me diziam que eu estava confiante. Mas não era verdade. Meu medo de ser ofendida nunca se foi. Eu tive um pequeno surto quando, no último Natal, meu tio disse que tinha feito um vídeo com fotos antigas minhas, e que não via a hora de me ver assistindo. Eu entrei em desespero. As mudanças foram só externas. Meus fantasmas nunca se foram.

O cabelo liso me ajudou. Depois dele, comecei a viajar. Tive coragem de ir a um encontro conhecer o chuchu. Mas eu me sentia dependente. Tinha a alegria vinculada ao cabelo. E como profissional da Química, eu sabia onde eu estava me metendo. Eu achava que ia morrer asfixiada durante o processo. Era terrível.

Então decidi aceitar meu cabelo como é. Não é fácil. Se olhar no espelho e não se reconhecer. Não se achar bonita. Arrumar o cabelo e amarrá-lo logo em seguida, por ter medo de ser motivo de gozação. Ver os fantasmas que ninguém mais vê. Não ser compreendida. Ainda não superei, mas estou tentando. É uma luta contra o passado.

Em dezembro de 2014 eu fiz minha última progressiva. E apesar de todas as dificuldades para manter minha sanidade, eu não vou desistir.