Antes de começar qualquer argumento, gostaria de deixar claro que não estou falando verdades absolutas. O que vou narrar aqui, é como a vida mais “natural” entrou na minha vida, e nesse momento está saindo.

Frequentemente quando leio algo sobre a importância de cozinhar, sempre vejo argumentos do tempo das nossas mães e avós que se dedicam exclusivamente à casa, dispunham de mais tempo para cozinhar. Eu mesma repeti isso várias vezes. Que avós e mães são essas? Minha mãe quase sempre trabalhou, assim como a minha avó. Minha bisavó paterna era escrava. Essas mulheres que dedicaram suas vidas exclusivamente à casa não existem na minha vida. E acredito que muitas famílias de origem pobre também tem essa história. As mulheres pobres sempre trabalharam. Aí saio eu repetindo como a vida era boa nos tempos antigos.

Também partindo do princípio que minha família sempre foi pobre, quer dizer que não comíamos melhor. Meu pai sempre fala do tempo em que ele só podia almoçar uma laranja. Ou como minha mãe só comia iogurte quando ficava doente. Então, que famílias eram essas que se alimentavam tão bem assim?

Estudando Linguística, um dos tópicos era a pressuposição, e como temos que aceitar alguns fatos como verdade para conseguirmos dar prosseguimento ao discurso. E embora eu acredite no poder de uma alimentação saudável, alguns pressupostos estão errados. Ou melhor, não se aplicam para a maior parte das pessoas.

Percebi também que as pessoas que eu acompanho que me falam como seguir uma dieta saudável perfeita, ganham dinheiro com isso. Ninguém que eu conheça na vida real consegue cozinhar do zero quase tudo que consome. E não é questão de falta de organização, má vontade, nada disso. É porque a vida é assim. E mesmo eu fazendo o meu melhor, eu sempre me sinto frustrada porque não cozinho todo dia. Ou porque simplesmente eu não tenho um freezer grande o suficiente pra armazenar toda banana congelada pro meu smoothie matinal. Eu aceitei um pacote natureba, e todo desvio que cometi foi severamente punido, aqui na minha cabeça. Fica o tempo todo martelando: “errado”.

Tenho muitos pontos de vista, confusos, na minha mente sobre esse assunto, e conforme as coisas forem ficando mais claras, vou escrevendo por aqui. Mas tenho certeza que qualidade de vida não é se sentir mal cada vez que come glúten. Ou se sentir culpada por não estar com a mínima vontade de cozinhar depois de um dia cheio de trabalho e transporte pública lotado. Ou não querer adiantar a comida da semana no domingo, porque você simplesmente precisa não fazer nada.  Ou não se sentir fraca por perceber que sua vida sem anticoncepcional é um inferno. A gente só precisa estar bem, e cada um vai se ajustando a sua realidade, sua origem, sua história.